sexta-feira, 27 de maio de 2016

O alimento e eu

Como a Endometriose mudou minha vida


Em meio à vida corriqueira Liz se esforçava para manter a alimentação e promover a melhoria de sua saúde, após ter descoberto uma doença sem cura há menos de dois anos.

Reaprender a se alimentar foi um processo. Em seu país as escolas não ensinam às crianças e adolescentes os princípios básicos da alimentação, restando esse papel aos pais, que por sua vez também não tiveram orientação profissional e repassam aquilo que funciona para eles. Porém nas últimas gerações essa influência foi enfraquecida pela atraente oferta publicitária de alimentos artificiais, processados e prontos, e que era a realidade de Liz nos últimos 20 anos.

Buscando informações em livros, artigos, revistas e se apoiando em fontes na internet, televisão e mesmo nos mercados, Liz descobriu um novo universo: a riqueza do mundo vegetal. Cores vivas e formas diversas, sabores até então obscurecidos pelo organismo intoxicado, propriedades extras que ocasionam seu bem estar... Passou a ver como a vida é mantida através dos nutrientes extraídos da terra.

Passou por longos períodos analisando o desafio do planeta para alimentar uma população cada vez mais crescente e os impactos que gera ao ambiente, como a debilidade da terra saturada com tantos químicos, a emissão de gases com seu transporte e distribuição e a pobreza de nutrientes essenciais à saúde que chega à mesa das famílias. Enxergou um contraponto, a produção de alimentos por pequenos produtores, que enriquecem a terra com nutrientes dos próprios restos de alimentos e promovem a combinação de plantações próximas que favorecem a melhoria do solo potencializando os alimentos, e se desafiou a extrair de sua dieta os previamente atraentes alimentos processados pelos vivos e diversos alimentos orgânicos e por uma variedade de cereais e grãos de baixo custo e pouco conhecidos. Deixou pra trás qualquer tipo de carne, reduziu em 90% seu consumo de leite e derivados, mas consumia vegetais não orgânicos quando não havia opções. Sua alimentação era formada mais por vegetais crus que quaisquer outros.

O ato de cozinhar, preparar seu próprio alimento e ir à feira dos produtores todo domingo às 7h da manhã lhe trouxe sensibilidade, lhe conectou a terra e à vida. Todo esse esforço não era mais apenas pela sua saúde - que estava cada vez melhor - era uma expressão de seu ser e a responsabilidade que sentia com o universo. Aliados a esse movimento estavam a yoga e a meditação.  

Surgiu assim um grande desejo de mostrar esse caminho para os outros, de apoiar pessoas que ainda estavam na situação em que ela se encontrava há dois anos. Tempo esse em que Liz estava em um processo muito doloroso, se deixou levar por suas paixões, desejo e ego. Havia perdido amigos de longa data, a confiança das pessoas e sentia que suas ações nesses últimos 20 anos causaram mais sofrimento que benefícios para ela e para todos com quem teve contato. Era uma pessoa de quem nem ela mesma gostava. Uma vida apoiada em sua carreira profissional e por isso quase cega, que a afastou da família e suas origens, numa tentativa de compensação das suas feridas, em ter crescido sem pai e por ter sofrido opressão na infância/adolescência.

E a vida é compulsória, somos criados, nos educamos e idealizamos o que queremos ser e fazer. Ela segue acontecendo e passamos boa parte dela em busca de algo, e acabamos por nos perder de nós mesmos, nos confundimos. 

Como não ficar doente? A doença de Liz tinha base genética, essa é a principal descoberta sobre a endometriose, um mal que atinge cerca de 20% das mulheres, que não tem cura e que tem comportamentos diferentes dependendo da região do país, um real mistério. Seu desenvolvimento é, no entanto, estimulado pela baixa no sistema imunológico, que é causada pela alimentação deficiente em nutrientes, pelo sedentarismo e pelos efeitos psicossomáticos do estresse. Quanto mais grave esse quadro, mais agressiva a doença pode se tornar. Ao descobrir a doença Liz entendeu de imediato sua enorme parcela de responsabilidade. 

A endometriose acometera parte de seu intestino e ambas as trompas... Ela estava prestes a perder os ovários, que possuíam cistos diversos. Seu desespero a levou a realizar a cirurgia sem ainda entender completamente as conseqüências. Liz estava com 39 anos e há dois anos ela e seu marido tentavam ter seu primeiro filho.

Há pouco mais de um ano Liz e seu marido começaram uma odisséia na tentativa de gerarem um filho. Sua primeira Fertilização in Vitro foi bem sucedida, levando a uma gestação muito celebrada, que durou apenas seis semanas, seguida de curetagem. Diversos exames mais tarde ela descobriu que a endometriose havia atingido suas trompas internamente - que na primeira cirurgia não foram tocadas, pois o médico tentou preservar o processo natural de gravidez -, o que poderia ser a causa do aborto.

Definiram por realizar uma nova cirurgia onde ambas as trompas foram extraídas. Outro exame acusou uma doença rara, a trombofilia, uma predisposição do corpo a causar coágulos no sangue levando à trombose, algo tratável durante a gravidez, mas que poderia ser outra causa do aborto. Meses mais tarde sua segunda FIV gerou três embriões, dessa vez perfeitos, mas essa não foi adiante. A implantação não foi bem sucedida e após tanto esforço e investimento financeiro e tamanha frustração, eles se viram arrasados e acreditavam que nunca seriam pais biológicos. Decidiram não falar mais sobre o assunto.

Liz acompanhava sua saúde periodicamente, pois sabia que sua doença era severa. Meses após sua última FIV ela se deu conta que estava em tempo de realizar novo exame de acompanhamento da endometriose, que deve ser feito a cada seis meses. Conheceu em sua recente cirurgia um médico especialista na doença, convidado pelo seu ginecologista. Ele realmente a impressionou com seu conhecimento sobre a doença esteve por longo período conversando com ela e seu marido no quarto do hospital, pouco antes da cirurgia, contando o que aprendeu em 20 anos de estudos e experiências com pacientes que não voltaram a desenvolver a doença após seu método de cirurgia. Infelizmente a cirurgia que ele realizou em Liz não contemplou o seu método, pois o médico ginecologista quis apenas retirar as trompas ao invés de limpar toda a doença, para proceder à FIV.

Existem duas linhas de pensamento entre os médicos ao se realizar o diagnóstico da endometriose. A primeira é de que se deve primeiro avaliar o estágio da doença e a idade da mulher, e se estiver enquadrada em certas condições - que são definidas por uma referência européia de muitos anos atrás - ela deve ser primeiro encaminhada para um tratamento de reprodução e depois trata a doença, ou mesmo que realize a cirurgia para uma limpeza dos focos da doença na pelve melhorando o ambiente inflamatório, mas sem tocar nos ovários, ou seja, a doença permanece no organismo. A outra é que se trate a doença, independente da idade avançada da mulher e se a doença é do estágio I, II, III ou IV.

Sem entender esse fato, Liz escolheu a primeira linha em ambas as cirurgias. O nível de inflamação causado pela endometriose nível IV é alto e o ambiente se torna menos propício para uma gravidez. Por outro lado, se uma cirurgia limpa apenas parte das inflamações, a doença severa como a de Liz, volta a crescer. E cada cirurgia realizada transforma-se em fibrose, aumentando a aderência entre os órgãos.

Entendeu tudo isso em sua consulta com Dr. Waldir Inácio, infelizmente, e mais tarde uma nova ressonância magnética apontou que seu ureter estava comprometido. Liz poderia perder seu rim esquerdo. Por outro lado Waldir havia acompanhado sua dor com o insucesso dos tratamentos de reprodução. Para ele restava ainda esperança para uma gravidez. Para Liz e seu marido esse não seria o objetivo de uma possível cirurgia, pois infelizmente sua situação financeira os impediam e não haviam programas ou subsídios para um casal com seu perfil ter um tratamento de reprodução sem custos.

Os planos de saúde geralmente não cobrem despesas de cirurgia com as equipes especializadas, contudo é possível obter parte por reembolso. Meses mais tarde a cirurgia foi agendada e a vida de Liz passaria por novas mudanças.

Sua nova vida rodeada de receitas, yoga, novos hábitos e uma alimentação natural lhe geravam não apenas ótimos resultados nos exames, mas um bem estar e disposição que ela não conhecia até então. Desde a descoberta da vida nos alimentos, e como a alimentação é o pilar de nossa existência, Liz havia empreendido em projetos para levar essa mensagem adiante. Definiu usar seu tempo, esforços e aprendizados até ali para ajudar outras pessoas a se alimentarem melhor, sem precisarem, contudo abandonar suas vidas. Começou escrevendo, logo depois criou um desafio de cozinhar e divulgar no site semanalmente por um ano, um livro de receitas vegetarianas. Com sua compreensão do health plate - prato saudável (antiga pirâmide alimentar) criou um produto natural e integral e abriu uma indústria para fabricá-lo.

Cirurgia se aproximando e Liz e seu marido enfrentavam dificuldades financeiras, pois os tratamentos de reprodução ainda não haviam sido pagos. Sua empresa também não havia chegado ao ponto de equilíbrio e seus investidores não tendo a compreensão do negócio, desistiram de seguir. Liz estava novamente em busca de emprego, havia decidido retornar à sua antiga profissão, pois era sua única saída.

A terceira cirurgia agendada e uma entrevista de emprego para início imediato aparece. Qual seria a escolha de Liz? O últimos dois anos a haviam ensinado que o corpo é o meio pelo qual a vida se mantém. Melhorou e muito sua saúde com sua mudança de alimentação e estilo de vida, e a doença era amenizada por isso, mas somente seria evitada pela cirurgia. Definiu realizar a cirurgia independente do emprego.

Seu médico solicitou os exames pré-operatórios e Liz descobriu um endometrioma - um cisto de endometriose no ovário direito. Em sua primeira cirurgia o médico cortou um pedaço do ovário esquerdo para retirar cistos comprometendo a fertilidade, e agora seu ovário direito estava comprometido. Seu coração voltou a bater forte, pois suas chances de se tornar mãe desapareciam aos poucos, como se fizesse parte desse plano superior que ocorresse assim, por capítulos.

Dia de cirurgia, Liz estava pronta e muito tranquila, afinal nos últimos dois anos perdera a conta de quantas anestesias, lavagens intestinais, agulhadas em diferentes locais do corpo e exames havia realizado. Pensava no quanto a descoberta da doença havia lhe deixado debilitada. Na época falava com pena de si mesma, com medo e como se sua vida estivesse sob risco. Nesse dia sua sensação era diferente, sabia que a doença veio para lhe ensinar e a transformou em alguém mais consciente e realmente sensível ao outro, algo que desconhecia. Se sentiu protegida, sabia que tinha que passar por mais uma.

Doze horas de cirurgia. Quando acordou se deu conta que a cirurgia durou o dobro do previsto. Passou a mão sobre sua barriga e sentiu uma bolsa de colostomia. Como estava sob efeito da anestesia, sorriu. Pensou que dali para frente evacuaria pela bolsa, e que era mais um efeito de seu carma, então acolheu o fato.

Seu marido estava no quarto, eram 4 horas da manhã quando Liz chegou. Nas pernas além de meia de pressão havia um aparelho para estimular a circulação, e ela disse ao marido que queria um igual. Seu humor estava nas alturas. O marido havia recebido o médico um pouco antes que lhe contara sobre toda a cirurgia, a descrevendo como uma das mais difíceis de sua carreira.

Liz ouviu o marido contar e aos poucos veio à compreensão, havia passado por um momento muito delicado, qualquer erro médico e sua vida poderia mudar. A bolsa de colostomia era na verdade um dreno que além de extrair o excesso de líquido entre os órgãos, avisa se o intestino se romper oferecendo mais tempo para os médicos agirem. Ela a usaria até sua alta do hospital.

Desde a base do reto sua enervação estava comprometida, sua pelve completamente colada ao intestino, revestida de uma teia fina e esbranquiçada como uma teia de aranha com tramas bem fechadas. Os ureteres e intestino pareciam à mesma coisa, os médicos o desprenderam com tesourinha, milímetro a milímetro, salvando assim também os rins. O útero depois de solto foi preso externamente com um botão, e o ovário esquerdo preso em um dos pontos da cirurgia. O cisto no ovário direito foi aspirado ficando parte dele onde os óvulos estavam depositados, preservando a fertilidade de Liz, ou o que restou dela.

A recuperação em hospital parece uma corrida, o paciente precisa vencer obstáculos diários para receber alta. São diversos tipos de profissionais que entram e saem do quarto de hora em hora, medicando, impondo fisioterapia, comida, limpeza do ambiente, coletando sangue para exames. Liz tentava dormir e a quantidade de remédios lhe prejudicava.

No primeiro dia teve uma alucinação, a primeira de sua vida. Acordou e viu um dragão chinês vermelho sentado ao lado de seu pé e o espantou, ele saiu voando e assumiu a forma de um espiral até desaparecer. No segundo dia descobriu que o antibiótico causou alergia e recebeu mais um medicamento. No quarto dia teve uma crise forte de gastrite e tomou sete diferentes medicações, tendo nessa noite uma "bad trip". Não conseguia ficar com os olhos abertos, mas tampouco conseguia dormir. Perdeu o controle de sua mente que pensava em "quadros", um após o outro, como se estivesse sonhando acordada. Ficou irritada e teve que ser supervisionada para não cair da cama ou arrancar seu dreno. Somente após vômitos seguidos ela conseguiu se acalmar. No quinto dia já melhor foi liberada, sem o dreno e sem o botão. Seu desafio a partir daí era seu intestino.

Desde a primeira cirurgia o intestino de Liz sofreu fortes ajustes. Passou a evacuar três a quatro vezes ao dia e não aceitava dieta pobre em fibras. Desta vez teve quadro de intensas cólicas, a cada movimentação na área final do intestino. Passaram-se quatro dias e Liz buscava se ajustar a essa única repercussão física da endometriose em sua vida.

Liz vê sua doença e o mundo com outros olhos. Para que serviria a vida senão para nos dar essa oportunidade de voltar pra casa e ter a lembrança do “ser”?

Claramente reduziu seu ritmo frenético, ousa menos e age com mais cautela, pensa antes com receio de ferir alguém. Hoje vive longe de família e amigos, junto ao marido e seus cães. Ambos adaptaram seu viver, nada de saída noturnas, churrascos e outras comemorações, pois não tem com quem conviver, mas também porque a vida ganhou mais profundidade. Vivem por eles mesmos, mas não vivem para eles. Procuram viver com mais propósito, se conhecer melhor, estar em comunhão com família e amigos ainda que distantes fisicamente, apoiar conhecidos ou estranhos e fazer do mundo um lugar melhor. Tem a consciência que todos erram diariamente e faz questão de pedir perdão aos seus antigos amigos e colegas pela pessoa que foi, pelas decisões erradas e por toda a violência que causou ou estimulou com suas ações. 

Acima de tudo Liz tem ciência que muitas pessoas encontram-se em situação difícil, com doenças bem mais graves e às vezes não aparentes ou físicas e essas pessoas dependem de amor para enxergar e passarem pelo seu processo de transformação. E ajudá-las nisso é seu maior propósito na vida.

Quanto ao sonho antigo de ser mãe Liz está tranquila. Entendeu finalmente que não tem controle sobre a vida e que ela não existe para realizar os seus sonhos. Ela faz o melhor que pode e deixa que a vida siga seu curso, esperando que traga mais ensinamentos e expansão.


A autora Jana Favato escreveu esse conto com o codinome Liz, para relatar seu processo de transformação impulsionado pela doença endometriose descoberta em 2014.


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