sexta-feira, 14 de novembro de 2014

por que cozinhar?

Por que justamente no momento da história que estamos abandonando a cozinha e delegando o preparo da alimentação à indústria de alimentos, passamos tanto tempo assistindo pessoas cozinharem na TV ou lendo livros sobre o tema?

Qual o gesto que uma pessoa comum poderia fazer para mudar o sistema alimentar, tornando-o mais sustentável e saudável? Como podemos ter compreensão mais profunda do mundo natural e do papel que nossa espécie desempenha nele?

Perguntas respondidas por Michael Pollan do New York Times, autor do livro "Cozinhar – A história natural da transformação", lançado no Brasil há poucos meses.


Segundo ele, o tempo gasto com preparo de alimentos lá nos states caiu para em média 27 minutos por dia, desde a década de 60. Menos tempo que levamos para assistir ao um programa de culinária na tv... Isso é o que milhões de pessoas fazem atualmente ao invés de cozinharem, inclusive aqui no Brasil.

Curioso esse interesse, pois não estamos buscando informações sobre como costurar ou lavar o carro. Cozinhar é diferente e de alguma forma não queremos nos livrar...


Os antropólogos dizem que “cozinhar nos define enquanto seres humanos – é o ato com o qual a cultura surge”, “Nenhum animal é um cozinheiro”. O ato de cozinhar, e não a fabricação de ferramentas ou a ingestão de carne ou mesmo a linguagem, veio nos diferenciar dos macacos e nos tornou humanos.

Por proporcionar aos nossos ancestrais uma dieta de maior densidade energética e de fácil digestão, permitiu que nossos cérebros crescessem e nos intestinos encolhessem. Alguns primatas gastam seis horas por dia mastigando.

Cozinhar assumiu assim parte do trabalho de mastigar e digerir, o que nos deu uma preciosa reserva de energia e fez com que empregássemos nosso tempo com outros propósitos, como criar uma cultura. Nos proporcionou a ocasião - o costume de comermos juntos num momento e num lugar determinados, nos tornando mais sociáveis e corteses.

bolo integral, com recheio de ameixas e cobertura de cacau

Mas o atual declínio do hábito de cozinhar, consequência da vida moderna que terceiriza essa atividade para as indústrias, gerou mais transformações. Muitas delas positivas como as mulheres que puderam ter uma carreira, bem como o acesso a diferentes culinárias a preços módicos. Outras nem tanto, como o preço que pagamos pela industrialização da alimentação, algo que só vem sendo sentido agora por nós. 

As grandes empresas não cozinham como as pessoas: tendem a usar muito mais sal, açúcar e gordura, além dos ingredientes químicos. Não é surpresa que o declínio do ato de cozinhar coincida com incidência da obesidade e de doenças crônicas. Em especial, esse declínio abalou a instituição da refeição compartilhada que é um dos fundamentos da vida em família. O lugar onde as crianças aprendem a arte da conversação e hábitos como repartir, ouvir, ceder a vez, administrar diferenças e discutir sem ofender.

massa integral feita em casa
A escolha por Cozinhar, no entanto, não é tão simplista assim. Passamos a semana entre pedir comida em casa, aquecer uma refeição pronta, aquecer um molho preparado e cozinhar uma pasta e mais raramente preparar uma refeição do zero, valendo-nos em quase todas as refeições de uma indústria de alimentos embalados disposta a fazer de tudo, que não aquecer e comer a comida.

Isso representa um problema para nossa saúde, nossas comunidades, nossa terra e especialmente para nossa conexão com o mundo. Quando vemos um alimento embalado não o vemos como algo que veio da natureza. Pensamos em uma mercadoria e acabamos por nos alimentar de imagem.

Cozinhar nos envolve numa rede de relacionamentos sociais e ecológicos com plantas, animais, solo, fazendeiros, micróbios dentro e fora do nosso corpo e naturalmente com as pessoas que se nutrem e se deliciam com a nossa comida. Cozinhar faz com que estabeleçamos conexões. 

tarte tartin de maça
Mas por que se preocupar? Talvez não represente um uso sensato de seu tempo. A divisão de trabalho proporcionou ao homem muitas bênçãos e é inegável que a especialização em áreas diversas seja uma força poderosa em termos sociais e econômicos.

Contudo, é também algo que nos deixa debilitados, estimula o desamparo, a dependência e a ignorância. Delegamos quase todos os nossos desejos e necessidades à especialistas e de alguma forma esquecemos a responsabilidade dos nossos atos do dia a dia e suas conseqüências no mundo real.

A poluição das hidroelétricas que mantém a tela do computador acessa, o duro trabalho braçal para colher frutas ou o sofrimento do porco que viveu e morreu para que você pudesse desfrutar do seu bacon. Oculta assim tudo que é feito em nosso benefício por outros especialistas.

Cozinhar é um antídoto para essa maneira de estar no mundo. Funciona como um lembrete diário da abundância da natureza, tornando visível muitas conexões que o supermercado e a substituição da refeição caseira conseguiram obscurecer.

massa com tomatinhos, abobrinha e lascas de parmesão

O “meio ambiente” começa a se situar menos “lá fora”.  Pois o que é a crise ambiental senão a crise no modo que vivemos? Pequenas decisões tomadas por todos nós dia a dia. Precisamos mudar a maneira como vivemos, como interagimos com a natureza em nossas cozinhas, jardins, casas e carros.

O fato de passar a cozinhar num mundo que tão poucos ainda são obrigados a fazê-lo, é declarar nossa independência dos grandes conglomerados que procuram organizar cada um dos momentos que passamos acordados e transformá-los em uma nova oportunidade para o consumo. E o exercício aumenta a autoconfiança e a liberdade, reduz nossa dependência e ignorância sobre a origem do que consumimos. Traz de volta o poder para as mãos de nossa comunidade, reconstruindo economias alimentares locais.

Não precisa ser todo dia, mas sempre que puder. Existe atividade menos egoísta, trabalho menos alienado, tempo menos desperdiçado do que aquele gasto preparando algo delicioso e nutritivo para quem você ama?

delicioso biscoito de aveia, linhaça, coco e ameixa
Em suas aventuras, conta também que os coreanos fazem uma distinção de “Sabor da língua” e “Sabor das mãos”. Sabor da língua é o fenômeno diretamente químico que acontece sempre que as moléculas tem contato com as papilas gustativas. Sabor que qualquer fabricante consegue. “Mc Donald´s tem sabor de língua”, exemplifica. Entretanto, o sabor das mãos oferece a inconfundível assinatura do indivíduo que a fez. Sabor das mãos é o sabor do amor.

Todo o texto até aqui escrito foi retirado do livro "Cozinhar, uma história natural da transformação", de Michael Pollan, em forma de síntese.


Então, cozinhe!

Jana Favato

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