segunda-feira, 22 de setembro de 2014

ENDOMETRIOSE: TRATAMENTO


Quem não chora, não mama!

Segundo o médico que realizou a ressonância da pelve quando do diagnóstico da endometriose: “não há dúvidas, a doença está bem avançada e acomete parte de seu intestino”.

O tratamento da doença se iniciou no segundo após seu diagnóstico. Busquei referências de médico especialista em endometriose em Belo Horizonte e consegui uma consulta para 6 dias adiante. A melhor especialista da cidade, segundo indicação de diversos médicos.


Neste post você perceberá que em todas as fases do tratamento o sistema de saúde do Brasil merece destaque. Sua pobre estrutura se configura em uma oportunidade para hospitais e clínicas criarem um sistema próprio, com constante demanda e excelentes rendimentos.

Consulta marcada com uma ginecologista especialista em endometriose, que somente atende particular, valor R$ 350,00. Nossa preocupação nesse momento era entender o estágio da doença e a possibilidade que eu tinha de engravidar, ainda que por reprodução assistida. Estávamos dispostos a pagar.

Com ressonância magnética e ultrassom de pelve em mãos fomos a uma consulta que teve duração de 90 minutos. Decepcionantemente a médica não aceitou ambos os exames e se recusou a confirmar o diagnóstico antes que profissionais de sua confiança refizessem os exames e que me submetesse a uma bateria de outros. Na verdade até a metade da consulta ela não quis sequer olhar a ressonância. No entanto, após me examinar em um rápido ultrassom, ela retornou totalmente diferente à sala de consulta. Pelas inúmeras credenciais internacionais que possui, sabe reconhecer endometriose pela aparência dos ovários e útero.

Solicitou assim mesmo os exames para confirmar a doença e em paralelo avaliar nossa condição para nos submeter à reprodução assistida. Nesse sentido a consulta resultou bem. Orçamento para a fertilização in vitro: R$ 20.000,00 por tentativa. Esse tipo de tratamento não é coberto por nenhum convênio. 

Saímos da consulta com um novo ultrassom marcado na mesma clínica, uma semana adiante -  novamente particular no valor de R$ 300,00. Minha ressonância foi para as mãos de outra profissional para ser detalhado. Eu fui para o laboratório para concluir uma dúzia de exames de sangue, que envolvia o marcador tumoral CA-125 e outros relativos à minha condição de engravidar como hormônios e doenças diversas. Meu marido passou pelo espermograma. Pelo menos todos esses realizados via convênio.

Sete dias mais tarde estava na clínica para o ultrassom e retorno da consulta. Durante o meu terceiro ultrassom de pelve entendi o motivo daquele novo exame.

A médica não apenas soube realizar um diagnóstico detalhado do estágio da doença como soube explicá-lo. Fez inclusive um desenho sobre o fenômeno kissing-ovaries (ovários se beijando). Uma massa de inflamações de endometriose se alastrou por trás do útero e puxou meus ovários para cima e o conjunto de órgãos útero - ovários - trompas para trás, colando-os na parede do reto. Confirmou ser caso cirúrgico e que provavelmente seria aberta (não somente laparoscopia) e teria duração de algo em torno de 4 a 6 horas. Novamente daqueles momentos que te balançam.

Durante essa conversa ela explicou que formam uma equipe médica multidisciplinar para tratar endometriose em BH: a ginecologista com as credenciais é quem lidera, ela faz o ultrassom, a colega a ressonância e os cirurgiões - proctologista, urologista e ginecologista - que executam as cirurgias em um dos hospitais de cidade. Todos com profundo conhecimento da doença.

Mais tarde no retorno da consulta a ginecologista admitiu finalmente a doença, mas ao avaliar meus exames ela conclui que até mesmo para me submeter a uma fertilização in vitro meu tempo era curto de acordo com resultados de hormônios e por eu estar com 39 anos. Solicitou assim uma avaliação com sua proctologista para entender o risco de uma gravidez antes da cirurgia, ou seja, o quanto a endometriose havia comprometido o reto. 

Compreendi que por se tratar de uma doença complexa associada ao desejo de engravidar, antes de submeter a qualquer tratamento, a investigação seria necessária e fazia sentido. No entanto, já haviam se passado 14 dias do diagnóstico e a proctologista não tinha horário pelos 30 dias seguintes. “Chorando muito” consegui uma consulta para 7 dias adiante, novamente particular, dessa vez por R$ 400,00.

Imagina o que passa na sua cabeça durante esses sete dias de intervalo de uma consulta para outra. Você sabe que tem a doença, que é grave, que está acometendo seu intestino e não tem nenhuma posição de qual é seu tratamento. Dias longos... Aproveitava para ler sobre a doença e entender o que viria.

Dessa vez a consulta foi bem esclarecedora, novamente estava nas mãos de uma excelente especialista. A proctologista confirmou que o caso era cirúrgico, explicou que parte do reto seria retirado e por isso evacuaria com maior frequência até o organismo se readaptar. Solicitou, contudo, que realizasse risco cirúrgico para posterior colonoscopia e então o resultado seria avaliado junto à ginecologista especialista, que tomaria junto a mim a decisão se a cirurgia viria antes ou depois da gravidez.

Durante nossa conversa ela me alertou sobre sua agenda. Se fosse o caso a cirurgia somente poderia ser realizada em novembro. Ao sair, tentei marcar a colonoscopia e para minha surpresa esse exame só poderia ser realizado como particular ao custo de R$ 1.200,00 honorários da médica e + R$ 1.300,00 honorários do hospital. Além disso, só havia disponibilidade para 30 dias adiante.

Não sabia se estava aliviada por saber um pouco mais ou decepcionada por não conseguir saber qual seria o tratamento. Haviam se passado 21 dias do diagnóstico e essa bateria de consultas e exames e nenhuma conclusão estava à vista.

Marquei o risco cirúrgico para 5 dias adiante. No momento que saí da sala do cardiologista fui para o consultório da proctologista para marcar a colonoscopia. Informaram que a médica avaliaria o risco cirúrgico e então me ligariam para agendamento. Lembrando que só havia disponibilidade 30 dias mais tarde... Esperei 2 dias. Liguei, perguntei, nada.

Meu cunhado é médico e desde o início foi ele quem buscou essas indicações para que me tratasse em Belo Horizonte, onde pudesse supervisionar todas as etapas e interferir quando necessário. Ele me disse algumas vezes: “Quem não chora, não mama!” e aos poucos fui entendendo o porque.

Já escrevi 1100 caracteres para contar o episódio com essa equipe médica e vocês verão que não serão necessários 500 para a conclusão do tratamento.

Novamente o acionamos, pois, haviam se passado 28 dias e não estávamos perto da resposta à pergunta: qual é o tratamento? Meu cunhado indicou um novo proctologista que além de conhecer bem, é uma referência incontestável. Uma segunda opinião naquele momento poderia ser uma luz. No mínimo eu poderia realizar a colonoscopia com ele, levar à ginecologista especialista e seguir tratando com a mesma equipe.

Avaliamos por outro lado a questão financeira. Infelizmente o hospital da equipe médica com a qual me tratava não era coberto pelo nosso convênio. O custo da cirurgia gira em torno de R$ 25.000,00 e o que foi gasto seria em parte reembolsado. Já havíamos gasto R$ 1.230,00 em consultas e exames não cobertos.

Com a proximidade de meu cunhado a ambos os médicos essa nova escolha poderia ser a solução. Topei a sugestão e conseguimos uma consulta com o novo proctologista para 2 dias adiante, porque ele estava fora do país. Nos adiantamos e a própria secretária informou qual o ginecologista operava junto a ele para casos de endometriose. Liguei e consegui também essa consulta para 4 dias adiante. Ambas particulares, nem tudo são flores. Uma com o custo de R$ 420,00 e a outra R$ 300,00.  

A consulta com o novo proctologista foi mais um dos momentos que me senti confortada e segura. Ele conseguiu me examinar e solicitou a colonoscopia como passo necessário e disse que aguardaria a posição do ginecologista quanto à situação da cirurgia: se seria cirurgia antes ou depois da fertilização. Solicitou também uma ressonância de abdome, pois me queixava de dores acima da região pélvica. Colonoscopia agendada no próprio consultório para 5 dias adiante. Ele mesmo solicitou à secretária que me auxiliasse para que em 7 dias o resultado dos dois exames e do ginecologista saísse, sendo possível concluir qual seria o tratamento. Tudo muito prático, objetivo e assertivo.

Na consulta com o novo ginecologista três dias mais tarde a resposta que tanto buscava: o caminho era a cirurgia, limpar os focos da doença e em seguida me encaminhar para fertilização in vitro. Ele disse também que sabíamos muito pouco da minha endometriose e sua decisão em operar é exatamente porque essa é a única forma de tratar a endometriose no estágio IV, na sua forma profunda, cujos diversos exames haviam diagnosticado. 

Quando ele disse essas palavras, acho que até sorri. Fico pensando se temos contato com anjos e fui abençoada com esse. Era quase possível ver sua áurea. Desde o dia 25 de julho, quando descobri a doença eu sabia que devia ser operada e finalmente alguém trouxe essa conclusão. Imagina engravidar com tantas inflamações e distorções no corpo, certamente não é um ambiente com energia saudável para um bebê. Se eles tiverem que vir, eles virão. Era apenas o que eu pensava. Quanto mais limpa e preparada, mais aberta e pronta para eles eu estaria. 

No final da consulta ele simplesmente soltou essa frase: “Não há nada que você tenha feito ou deixado de fazer para ter essa doença”. A endometriose é algo tão agressivo e invasivo que a mulher se questiona se seu estilo de vida é que provocou a doença. Ele, por ter muita vivência com ela, já busca confortar a paciente porque enxerga o que a espera.  

No mesmo dia já comecei a arranjar a cirurgia. No dia seguinte realizei a ressonância de abdome e dois dias mais tarde a colonoscopia, ambos normais. Dessa vez os 7 dias que se passaram foram assertivos e produtivos, devido a profissionais que se dedicam sem frescura a salvar pessoas, sabendo que tempo é uma das variáveis que pode salvar o paciente.

No próximo post concluirei essa série vivida em intensos 40 dias, detalhando o pré e pós cirúrgico.

Das etapas vividas essa foi a mais difícil. A ressonância de abdome veio pelo receio de um câncer, medo que vivi por 30 dias. O mais duro de uma doença é você não saber o que é, pois quando você sabe, enxerga a realidade e se prepara para ela. Quando não sabe lhe gera possibilidade de perda e sua mente divaga sem parar criando diversos fantasmas que te assombram.

É o famoso apego pela forma que você se vê e pelo que acha que é. Quando enxergamos mais além vemos que nada disso matters. E é para isso que recebemos a oportunidade de adoecer, para estar no limite da vida e encontrar o real propósito.


Namaste!

Jana 


Nenhum comentário:

Postar um comentário